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viviti

 

 

 

As mãos do cavalo – um belíssimo lusitano castanho, de quase cinco anos – afundavam os cascos na relva húmida e fofa abrindo fundos sulcos.

Espreitei o relógio; eram sete e vinte da manhã. O sol erguera-se havia pouco, num horizonte róseo, anunciando mais um dia límpido e morno de plena primavera.

Saboreava o trote macio do “Golias” com o prazer de quem mata saudades de hábitos antigos. Abriu-se-me, então, um sorriso largo ao lembrar a expressão arrepiada da minha tia Emília ao ver-me, pouco antes, lavar vigorosamente a cara e os braços na água fria do poço do quintal. – Pequenas delícias das manhãs ribatejanas para um jovem de vinte e três anos, acostumado, de menino, às coisas simples e boas da vida no campo.

Estiquei, docemente, as rédeas, e o bridão, aconchegado à boca do Golias, fê-lo resfolgar e estancar. Saltei para o chão para esticar as pernas e fumar o meu primeiro cigarro do dia.

Inundou-me uma sensação de grande tranquilidade. Estava, finalmente, de férias na minha terra, sem agenda a cumprir, livre – por uns tempos – da grande cidade, dos livros que me afundavam os olhos e da rotina que me embotava o espírito. Respirei, sôfrego, aquele ar puro e fresco.

Trotara já uns bons pares de quilómetros pela campina e a Chamusca não era mais que um ténue e longínquo recorte de casario na bruma rasteira. O Golias pastava, mansamente, calmo, seguro da velha amizade que nos unia. Chamei-o e afaguei-lhe o longo pescoço. Apaguei o cigarro e preparava-me para montar de novo, quando, vindo do lado do sol, soou um tropel abafado. O fragor aumentava com a aproximação, Tentei fixar a vista, o que se revelava difícil, tal a luminosidade do efeito contra-luz.

De princípio, só consegui ver uma grande nuvem de pó. Depois, lentamente, começo a definir-se uma extensa manada de novilhos, ladeada por campinos de papilho ao alto; um belo e formidável galope, cuja visão era uma benção do céu para quem, como eu, aqui fora criado.

Conduzindo a manada destacava-se altivo, um velho conhecido e amigo da família: mestre Afonso Domingues, um homem da geração do meu avô, desde sempre ligado à criação dos toiros de lide. Ao reconhecer-me também, mestre Afonso acenou amigavelmente e, fazendo sinal aos seus homens para que continuassem, galopou na minha direcção.

– Então rapaz, como estás? Perguntou o ancião. Dava gosto vê-lo vestido a rigor; calção com abotoadura, meia branca bordada e sapato de espora, colete e cinta vermelha a cingir-lhe a fina camisa de cambraia. E o barrete, verde

como a nossa Lezíria, que nunca o abandonava, compunha-lhe a figura. Na face, ostentava as longas suíças que sempre lhe conhecera, agora alvas, contrastando com a tez bronzeada de muitos sóis.

– Cá vou, mestre Afonso, agora melhor, de férias na nossa terra.

– Então e a Faculdade lá por Lisboa, já sais doutor este ano? – Que não, respondi, espero que lá para o ano que vem, se Deus quiser. E depois ainda há o estágio…

– Olha, João; vem daí comigo deixar o gado no pasto. Depois vamos almoçar lá na Herdade.

– Mas, ía eu a dizer… – Não há, mas, nem meio mas; almoças com gente e telefonas lá para casa a avisar. A minha mulher há-de gostar de te ver, concluiu mestre Afonso.

E, habituado que estava a fazer-se obedecer, esporeou o poderoso cardão, com a certeza de que eu o seguia. E lá fui, no seu encalço, ambos lançados num alegre galope, ganhando a manada.

Ultrapassámos as primeiras semeaduras da Herdade já o sol ía alto; passava do meio dia. Avistei, então, a grande e velha casa de habitação, cuja cuidada brancura resplandecia.

Ao ruído dos cavalos no páteo, D. Amélia assomou-se ao alpendre e, ao dar comigo, exclamou: Deus seja louvado; é o menino João! – Não posso crer; há tanto tempo que não o víamos… está um homem, e bonito de ver, desabafou a idosa senhora que eu tanto estimava.

- Mas entre, Joãozinho, entre, não fique à torreira, convidou ela, franqueando-me a porta.

- Sabe; temos cá a nossa neta, a Luísa. Eu já a chamo: Luísa, oh Luísa, vem cá depressa rapariga, está aqui o teu amigo João.

Fiquei deslumbrado. A bela mulher que ali estava, só vagamente me lembrava a moça magricela dos já remotos anos da instrução primária, em que fôramos colegas de carteira. O bonito cabelo negro–azeviche contornava-lhe o rosto ovalado, de feições correctas, dominado por dois enormes e expressivos olhos de um extraordinário verde acinzentado, abertos num espanto igual ao meu.

Almoçámos um esplêndido torricado, onde o bacalhau foi rei, regado com um soberbo branco feito à maneira antiga.

E hoje, volvida uma trintena de anos, ainda lembramos esse almoço, eu e a minha mulher, a Luísa, a neta do mestre Afonso e da D. Amélia, cuja memória nos enriquece os serões. Que saudades nos deixaram.

 

 

 

Conto de  Eugénio de Sá

Publicado no Jornal Vida Ribatejana

Edição de 1 de Março de 2000