Como uma
semente, cresceu, fincou raiz dentro
do corpo, ramificou o mal no rio
vermelho da vida. Não houvera uma
devastação total, porque a máquina
geradora que irrigava determinados
antídotos foi muito bem criada. Como
se já soubessem da sua grande
necessidade alternativa, para que
antídotos mais fortes e com efeitos
também devastadores não fossem
utilizados.
Foram anos
difíceis combatendo uma praga que
criava força, que digeria
vagarosamente cada fruto plantado no
campo da vida. A cada minuto, uma
batalha forte, onde a trégua muito
pouco durava.
Era o tempo
suficiente para dar um respiro e
abastecer a máquina geradora que não
podia ser desligada nem na hora do
sono. Que sono? Anos sem saber o
prazer do sono, do descanso, dos
sonhos. Sonhar era estar com os olhos
abertos e ver assim uma miragem de um
horizonte lindo, de um campo rico e
sadio.
O cansaço era
tamanho, que por vezes, a vontade era
de sentar na varanda, olhar para todo
aquele campo e deixar ser devorado.
Mas o som da máquina geradora
alertava, como dizer, que ainda havia
muito que fazer, que nada estava
perdido; bastava apenas não perder a
força.
Houve até
quem dissesse que a praga não existia,
pois, aquele campo parecia tão bem
cuidado, tão bem cultivado, que aos
olhos de quem passava por ali,
enxergava um campo lindo e cheio de
vida, desconhecendo todos que a praga
vinha corroendo por baixo da terra,
que minava um pouco a cada dia aquela
beleza exterior.
Alguns frutos
morreram sim; não suportaram a dor
desta praga desmedida, que sabia
exatamente onde a máquina geradora não
irrigava o antídoto. À vontade de
atear fogo naquele campo por vezes foi
tentadora, porém, haviam outros campos
que dependiam da existência deste
campo contaminado; porque de alguma
forma, o que se mostrava viçoso,
garantia sim, o fim da praga. A
solidariedade e apoio de outros
campos, até mesmo de tantos com pragas
a devorarem, injetavam na máquina
geradora, combustível suficiente para
não parar a irrigação.
Aquele campo
já não era mais tão forte, nem tanto
aparentava mais a vida que camuflava o
mal debaixo da terra. Não havia mais
condições de lutar sozinha. Até que
chegou o dia de enfrentar e decidir
vazar e limpar a nascente do rio
vermelho; não havia outra solução.
Foi quando
percebi que tantos e tantos campos,
estavam dispostos a ceder parte de
suas nascentes para regenerar e não
deixar secar o rio deste campo que já
não via mais frutos sadios.
Mas não havia
muito tempo, tinha de ser um campo
próximo, quase que vindo da mesma
semente onde este sangue vermelho
paralelamente banhou suas sementes. E
da noite para o dia, o alívio, o
descanso. A máquina geradora já não se
desgastava tanto, apenas mantinha o
equilíbrio das forças, a bateria já
não dispunha de tanta carga, mas não
hesitava em continuar carregando e
fazendo correr aquele rio vermelho.
Foi então que
a nascente foi barrada, e
esterilizada. Agora o fluxo deste rio
tem um curso diferente. Combater a
praga maldita com sua própria origem.
Há ainda mais um pouco de trabalho
para enfim, limpar este campo; alguns
antídotos auxiliares que farão desta
nascente uma mina de vida, limpa e
pura.
Hoje, sentada
na varanda deste campo, vem-me à
pergunta.
É o fim de
uma praga, ou o início de um novo
plantio?
A bem da
verdade, a resposta não importa, e
sim, poder ver um futuro cheio de
frutos.